O Brasil tenta revolucionar na Copa do Mundo de 1978

Muita coisa mudou no futebol brasileiro desde de 1974. Uma intervenção velada na CBD pusera fim ao longo reinado de João Havelange. Para seu lugar foi indicado, um novo todo poderoso, o Almirante Heleno Nunes. A intervenção tinha claros fins políticos. O Almirante era presidente da Arena, partido político do Governo no Estado do Rio de Janeiro.

Sempre que se aproximava a disputa de uma Copa do Mundo, muitas discussões são levadas para as mesas redondas, nas conversas de bar, nos bate bocas de rua. Antes da Copa de 1978, a discussão não era sobre convocação, clubismo ou até mesmo, o regionalismo que sempre temperava as alterações mais apaixonadas. Para o mundial na Argentina, taticamente o futebol brasileiro estava atrasado em relação ao europeu. Essa filosofia é que se discutia pelo Brasil inteiro. Todos queriam saber qual o treinador escolhido pela CBD que tentaria revolucionar o nosso futebol. Coube a Osvaldo Brandão substituir Zagalo no comando técnico da seleção. Embora experiente, conhecedor do oficio e disposto a contribuir para que o sistema defensivo de Zagalo se transformasse num capitulo definitivamente encerrado, Osvaldo Brandão não conseguiu chegar até 1978. Comandou a seleção no torneio do bicentenário da Independência dos Estados Unidos e até o primeiro tropeço do Brasil nas eliminatórias no dia 20 de fevereiro de 1977.

Heleno Nunes novo presidente da CBD, dispensou Osvaldo Brandão e convocou o capitão Cláudio Coutinho. Um técnico de pouca experiência mas que acreditava firmemente na teoria. Falava muito bem e era brilhante no transmitir suas instruções. O novo treinador levava para a seleção uma proposta tão nova quando discutível. O futebol brasileiro sempre apoiara sua força no brilho individual de suas grandes estrelas. Mas, os tempos eram outros. A fase do futebol individualista, segundo o novo treinador, ficou para trás. “Polivalência” foi o primeiro termo que Coutinho incorporou ao vocabulário do futebol brasileiro. Outros se seguiram , do britânico “over laping” ao indefinido “ponto futuro”. Era muita teoria e pouca prática.

Foram novidades que deram certo no restante das eliminatórias que o Brasil lutava pela classificação com colombianos e paraguaios. Novidades, porém que não teriam o mesmo sucesso durante a excursão que a seleção realizou pelo exterior, um mês antes da copa de 1978. Coutinho observou muito, mas não evoluiu em suas convicções. A polivalência continuava sendo apenas uma palavra. O coletivo parecia definitivamente incompatível com o temperamento individual do jogador brasileiro. E o padrão de jogo ficava cada vez mas indefinido.

O Brasil ficou no grupo três e nas duas primeira partidas de pouco futebol e poucos gols, serviram para mostrar que a seleção brasileira era apática e indefinida. O empate de 1x1 contra a Suécia foi desapontador. E o treinador Coutinho não tinha muitas opções ofensivas. Tanto assim que resolveu apelar para o lateral direito Nelinho jogar na ponta direita, na esperança de que ele pudesse fazer aquilo que Gil não conseguiu fazer. No segundo jogo um novo empate decepcionante. Desta vez, um 0x0 contra a Espanha. Continuavam as indefinições. Mesmo assim, o Brasil venceu seu terceiro jogo contra a Áustria por 1x0, gol de Roberto Dinamite que não tinha atuado nos jogos anteriores. O Brasil estava classificado para a próxima fase.

Ficamos no grupo B com Argentina, Peru e Polônia. Vencemos o Peru por 3x0. O jogo contra a Argentina seria aquele que definiria o outro finalista do mundial. Mas, o 0x0 não definiu nada. Tudo ficou para a rodada do dia 21 de junho quando jogariam Brasil x Polônia e Argentina x Peru. O saldo de gols poderia definir o finalista. Por isso, estranhamente, a FIFA marcou os dois jogos para horários diferentes. Primeiro, o jogo em que o Brasil realizou sua melhor exibição e venceu a Polônia por 3x1. Três horas mais tarde, já sabendo de quantos gols precisaria para se classificar, os argentinos enfrentaram os peruanos e venceram por 6x0. Goleada suficiente para levar os donos da casa para a final contra a Holanda. Muita coisa de falou sobre aquele jogo. Acusações contra o time do Peru que, em campo, parecia desinteressado, frio, ingênuo, omisso. Dirigentes brasileiros não hesitaram em afirmar que os jogadores peruanos haviam facilitado a tarefa dos argentinos que precisavam de quatro gols de diferença.

Restou aos brasileiros jogar com a Itália e lutar pelo terceiro lugar. Vencemos por 2x1 e terminamos o campeonato invicto. Tal fato, somado às circunstâncias que cercaram a discutida goleada dos argentinos sobre os peruanos, levaram o treinador brasileiro Cláudio Coutinho a uma declaração que se tornaria quase história: “O Brasil é o campeão moral desta Copa”.

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